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Como o modelo “everything as a service” pode afetar o mercado de TI atual

Estamos vivenciando um momento de transformação na indústria de TI. As ( r)evoluções tecnológicas como cloud computing, mobilidade, big data etc, estão mudando o setor de forma radical. Na prática, se observarmos bem, estamos vendo a indústria caminhar na direção do “everything as a service”. Isto muda em muito a sua estrutura e os atuais modelos de negócio, abalando as empresas tradicionais. Claro que não acontece de um momento para outro, mas é um processo contínuo e se as empresas tradicionais de TI não souberem ou não puderem se adaptar, perderão seu espaço no mercado. As grandes corporações de TI construíram seus modelos de negócio e sua estrutura organizacional em cima do atual paradigma, com alguns pilares básicos (nem todas possuem todos os pilares, mas pelo menos a maioria adota dois dos três pilares). São eles: venda de hardware, venda de licenças de software e venda de serviços, a maioria destes últimos ligados diretamente à venda de hardware e software, como serviços de integração e implementação de seus produtos.

A mudança para um modelo de “everything as a service” afeta não só as grandes empresas de TI, mas toda sua cadeia de valor, pois a maioria dos  seus parceiros de negócio atuam como intermediários, vendendo hardware e software para empresas de menor porte, ampliando sua abrangência de mercado. As grandes corporações atuam diretamente nas grandes contas e deixam as menores para seus parceiros, como VARs e revendas.

Vamos analisar cada um destes itens:

Venda de hardware

Em hardware podemos observar dois movimentos diferentes e simultâneos. Um deles afeta os chamados servidores comoditizados, aqueles onde existem poucas diferenciações reconhecidas pelo mercado, como os servidores de base Intel. Nesta faixa vemos que as marcas tradicionais perdem cada vez mais espaço para a linha rotulada de “outros”, que são servidores fabricados por empresas chinesas como Quanta. Por exemplo 80% dos servidores do Facebook vem deste fornecedor. O Google segue caminho similar e os demais grandes provedores de nuvem, como Amazon,  estão fazendo o mesmo. A própria Intel reconhece este fato. Em 2008 75% dos chips eram fornecidos para os três grandes: IBM, HP e Dell. Hoje estes 75% estão distribuídos por oito fabricantes, um dos quais não vende servidores, apenas os fabrica para serem usados internamente, que é o caso do Google. O resultado é que vemos cada vez mais servidores físicos concentrados nos provedores de nuvem e nas grandes corporações, em suas nuvens hibridas, como o exemplo da GM.

Sim, vemos o insourcing acontecendo nas grandes empresas e o uso de nuvens públicas para pequenas e médias empresas. Para quem, então, serão vendidos os servidores comoditizados? Para estes grandes atores, provedores de nuvem e data centers de grandes empresas, o que obviamente diminui sensivelmente as margens para os fabricantes. Uma estimativa do Gartner aponta que em 2017 os grande data centers, aqueles com mais de 500 racks, serão responsáveis por 29% de todas as compras de hardware.  As pequenas e médias empresas já estão no caminho de comprarem apenas servidores virtuais. O reconhecimento deste fato fez com que a IBM vendesse sua linha de servidores Intel para chinesa Lenovo. Esta tendência deve se acelerar quando movimentos como o OpenCompute Project, lançado pelo Facebook, começarem a se disseminar. A proposta é criar data centers mais eficientes baseados em servidores de baixo custo.

Por outro lado existe também a necessidade de operar sistemas legados e transacionais, que demandam servidores especializados. Estes continuarão sendo importantes. Vemos nesta faixa os mainframes, que continuarão conosco por algum tempo ainda. Interessante observar que 92 dos 100 maiores bancos do mundo usam mainframes, mas nenhuma das grandes empresas da Internet, como Facebook, Google, Amazon e eBay os usam. Uma analogia que pode ser feita com os mainframes é com a razão de descida de um planador. Para cada quilometro voado, ele desce alguns metros. A base de usuários de mainframes vai sofrendo lenta erosão, concentrando a sua capacidade computacional (tradicionalmente medida em MIPS – milhões de instruções por segundo) em menos usuários. Bem, um dia os planadores pousam. Outro hardware que continua com boas perspectivas são os chamados appliances, máquinas especializadas como o PureData da IBM (uma evolução do Netezza) e o Exadata da Oracle.

Outro pilar da indústria é a venda de licença de softwares para rodarem nos servidores das próprias empresas. Neste modelo de negócios, o comprador é obrigado a pagar antecipadamente pelo software antes de usufruir de suas vantagens. O chamado “upfront payment”. Na prática, se olharmos o típico ciclo de vida de um software (de 3 a 4 anos entre versões), vemos que o vendedor do software obtém 70% da sua receita total na venda da licença e nos serviços de implementação e os 30% restantes na manutenção. Mas, uma análise dos relatórios para os acionistas das principais empresas de software mostra que elas estão hoje ganhando mais dinheiro com seus contratos de manutenção das licenças já vendidas, do que com novas licenças. É um sintoma que o modelo está sob pressão. Também é sintomático que as novas versões que são oferecidas (ou impostas) apresentam o que chamamos de excesso de capacidade, ou seja, disponibilizam muito mais funções que os usuários realmente precisam.

Esta pesquisa de 2010, “Achieving Enterprise Software Success”, mostra claramente os questionamentos que colocam em cheque o atual modelo. 37% dos entrevistados disseram que a complexidade dos softwares corporativos têm aumentado significativamente  e 53% afirmaram que menos da metade de seus usuários conseguem usar eficientemente. As perspectivas futuras mostram que o mercado busca outras alternativas. Segundo o IDC, o investimento no que ele chama de terceira plataforma (CAMS- Cloud, Analytics, Mobile e Social) tende a crescer 11,7% ao ano até 2020, contra 0,8% de crescimento do modelo atual, a segunda plataforma (modelo on-premise, client-server). Pelo IDC, a receita das empresas de software que não tenham ofertas SaaS cairão significativamente. O IDC também mostra que entre as grandes corporações, aquelas com mais de mil funcionários e geralmente consideradas meio arredias quanto à adoção de inovações, 31% já estão adotando a estratégia de “cloud first”. Pesquisa global da IBM comprova isso ao mostrar que 85% das novas aplicações já estão sendo desenvolvidas para cloud.

Outro fato sintomático é que o numero de iniciativas de TI lideradas por executivos de negócio subirão para 80% em 2016. A razão é simples: contratação de aplicações SaaS é muito mais fácil e eventualmente pode passar a própria área de Ti das empresas. Outro fato é que os preços e margens do software no modelo SaaS tenderão a ser bem diferentes do modelo on-premise. Softwares cuja licença eram vendidos por um milhão de dólares provavelmente começarão a ser disponibilizadas por novas modalidades, como  freemium, para suas funcionalidades básicas, com os clientes pagando algumas dezenas de dólares por cliente, para as funcionalidades adicionais que lhes interesse. É o efeito app store. Com isso, as empresas de software perdem suas “cash cows”. Um exemplo é a Microsoft oferecendo grátis para dispositivos móveis uma de suas antigas jóias da coroa, o Windows. Vejam um comentário interessante sobre isso aqui.

Esta mudança para SaaS afeta diretamente os modelos de negócio da indústria de software. Em vez das polpudas receitas obtidas upfront passam a receber micropagamentos periódicos, afetando sua estrutura, fluxo de caixa, modelos de comissionamento… Enfim, cria-se uma nova economia para a indústria de TI. Com certeza esta mudança vai afetar a maneira como a indústria será vista pelos acionistas e pela comunidade financeira. Todo o modelo de valorização é baseado em capex e como os analistas reagirão quando as empresas começarem a vender pelo modelo opex, com novos  modelos de receita? Que impactos a lenta transição de um modelo para o outro terá na valorização das ações, tão pressiondas pelo curto prazo?

Finalmente, serviços. Os tradicionais serviços de outsourcing tendem a perder margens, à medida que grandes corporações caminham para o insourcing (vide exemplo da GM acima), tornado viável pela instrumentação de automatização das operações (modelo em nuvem híbrida) e as pequenas e médias empresas optam por operar no modelo de cloud pública, que oferece margens bem menores que o modelo atual de outsourcing. Os serviços de integração e implementação tendem a diminuir sensivelmente quando a aplicação é operada no modelo SaaS. Estes serviços caminham rapidamente para margens cada vez menores. Desenvolver software passa a ser também development as a service, comoditizando-se.

O resultado final? As empresas lideres de TI de hoje , que construíram seus modelos de negócio neste mundo on-premise, não necessariamente serão as mesmas daqui a cinco ou dez anos. Se quiserem se manter no mercado terão que se reinventar para serem líderes em um mundo cada vez mais “clouding”. Como? Devem se posicionar como provedoras de soluções de transformação em setores de indústria (e não generalistas, “on size fits all”). Mas como provedoras de “killer apps”, devem ser cloud-centric, se colocar como uma plataforma na qual todo o ecossistema de desenvolvedores e parceiros construam suas soluções e , é claro, devem saber se vender para os executivos de negócio e não apenas para TI. Parece fácil, mas é uma mudança cultural significativa. A transformação de um modelo de negócios é uma mudança cultural, de ampla escala e bastante complexa. Para as grandes corporações é como ensinar os elefantes a dançarem, como o livro de Louis Gerstner, “Who Says Elephants Can’t Dance?”, lançado em 2003, retrata como conseguiu retirar a IBM da bancarrota e transformá-la de novo em uma potência do mercado. Muitas empresas novas estarão entre as Top 5 do mundo de TI no final da desta década, como Amazon e Google. Umestudo do Gartner de agosto de 2013, mostra em IaaS  a Amazon é  claramente vista como líder. Esta outra pesquisa da Synergy Research de novembro do mesmo ano comprova o fato. Este contexto faz com que as empresas tradicionais comecem se movimentar, com a IBM adquirindo a SoftLayer em julho de 2013 para se manter competitiva, frente a resultados financeiros não muito bons e a Microsoft entrando na área de Internet das Coisas para refazer seu caminho. Para recordar como este mundo é dinâmico, basta lembrar que em meados dos anos 80, Microsoft , Dell, Sap, Cisco e Oracle eram apenas 1/1000 do tamanho das Top 10 da época. Na verdade, acho que a maioria das grandes e tradicionais empresas de TI de hoje ainda precisam reaprender a dançar.

Fonte: Imasters – http://imasters.com.br/secao/gerencia-de-ti/tendencias/

 

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